CASTRO-ALVES-O-POETA-DOS-ESCRAVOS

Castro Alves (1847-1871) foi um poeta brasileiro. O último grande poeta da terceira geração romântica no Brasil. Expressou em suas poesias a indignação aos graves problemas sociais de seu tempo. Denunciou a crueldade da escravidão e clamou pela liberdade, dando ao romantismo um sentido social e revolucionário que o aproxima do realismo. Foi também o poeta do amor, sua poesia amorosa descreve a beleza e a sedução do corpo da mulher. É patrono da cadeira nº7 da Academia Brasileira de Letras.

Poema Vozes D’África

VOZES D’ÁFRICA VOCES DE AFRICA
Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? !Dios! !Oh Dios! Dónde estás que no respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes En qué mundo, en qué estrella te escondes
Embuçado nos céus? embozado en el cielo?
Há dois mil anos te mandei meu grito, Hace dos mil años exclamo mi grito,
Que embalde desde então corre o infinito… Que en vano desde entonces recorre el infinito…
Onde estás, Senhor Deus?… Dónde estás señor mío?
Qual Prometeu tu me amarraste um dia Cual Prometeu me ataste un día
Do deserto na rubra penedia Al desierto, en la roja isla
— Infinito: galé!… Infinito : Galé!…
Por abutre — me deste o sol candente, Por buitre me diste el sol y la arena
E a terra de Suez — foi a corrente y la tierra de Suez- fue la cadena
Que me ligaste ao pé… Que me ataste al pie…
O cavalo estafado do Beduíno El caballo estafado del beduino
Sob a vergasta tomba ressupino Bajo azotes muere el equino
E morre no areal. tumbado en el arenal
Minha garupa sangra, a dor poreja, Mi lomo sangra, el dolor chorrea
Quando o chicote do simoun dardeja Cuando el látigo del simoun golpea
O teu braço eternal. A tu brazo fraternal
Minhas irmãs são belas, são ditosas… Mis Hermanas son tan bellas, tan dichosas
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas Ásia duerme en las sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão. De los harenes del Sultán.
Ou no dorso dos brancos elefantes O en el dorso de blancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes Se menea cubierta de brillantes
Nas plagas do Hindustão. Entre las plagas del Hindustán
Por tenda tem os cimos do Himalaia… Por carpa tiene la cima del Himalaya…
Ganges amoroso beija a praia Ganges amoroso que besa la playa
Coberta de corais … Repleta de corales…
A brisa de Misora o céu inflama; La brisa de Misora al cielo inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama, ella duerme en los templos del Dios Brahma
— Pagodes colossais… – Pagodes Colosales
A Europa é sempre Europa, a gloriosa!… Europa es siempre Europa, !la gloriosa!…
A mulher deslumbrante e caprichosa, Mujer deslumbrante y caprichosa
Rainha e cortesã. Reina y cortesana
Artista — corta o mármor de Carrara; Artista- corta el mármol de Carrara;
Poetisa — tange os hinos de Ferrara, Poeta- recita himnos de Ferrara,
No glorioso afã!… !En su glorioso afán!…
Sempre a láurea lhe cabe no litígio… Siempre el premio cabe en el litigio…
Ora uma c’roa, ora o barrete frígio Ora una c`roa, ora un gorro frígio
Enflora-lhe a cerviz. Enganalándole la cerviz
Universo após ela — doudo amante Universo después de ella- loco amante
Segue cativo o passo delirante Sigue cautivo su paso delirante
Da grande meretriz. De la gran meretriz
………………………………
Mas eu, Senhor!… Eu triste abandonada !Pero yo, Señor!… Yo triste abandonada
Em meio das areias esgarrada, En medio de arenas desgarrada,
Perdida marcho em vão! !Perdida marcho sin sentido!
Se choro… bebe o pranto a areia ardente; Si lloro… bebe mi llanto la arena ardiente;
talvez… p’ra que meu pranto, ó Deus clemente! Quizás… para que mi llanto, !oh Dios clemente!
Não descubras no chão… No lo halles en el piso…
E nem tenho uma sombra de floresta… No tengo una sombra de floresta…
Para cobrir-me nem um templo resta Para cubrirme, ni templo resta
No solo abrasador… En el suelo abrasador
Quando subo às Pirâmides do Egito Cuando subo las pirámides de Egipto
Embalde aos quatro céus chorando grito: En vano, a los cuatro cielos, grito
“Abriga-me, Senhor!…” “!Cobíjame Señor!…”
Como o profeta em cinza a fronte envolve, Como el profeta que la frente envuelve
Velo a cabeça no areal que volve Cubro la cabeza en el arenal, que devuelve
O siroco feroz… El Siroco (viento) feroz…
Quando eu passo no Saara amortalhada… Cuando cruzo el Sahara amortajada
Ai! dizem: “Lá vai África embuçada Luego dicen: “Ahí va África disfrazada
No seu branco albornoz… “ Con su blanco albornoz… “
Nem vêem que o deserto é meu sudário, No notan que el desierto es mi sudario
Que o silêncio campeia solitário Que el silencio deambula solitário
Por sobre o peito meu. Dentro de ese pecho mío
Lá no solo onde o cardo apenas medra En ese suelo donde el cardo a penas medra
Boceja a Esfinge colossal de pedra Bosteza la esfinge colosal de piedra
Fitando o morno céu. Encarando el cielo vacío
De Tebas nas colunas derrocadas Desde Tebas, en las columnas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas las cigueñas espían extasiadas
O horizonte sem fim … El horizonte sin fin
Onde branqueia a caravana errante, Donde blanquea la caravana errante
E o camelo monótono, arquejante Y el camello monótono, jadeante
Que desce de Efraim Que baja de Efraim
…………………………………
Não basta inda de dor, ó Deus terrível?! No basta ya de dolor, ¡?oh Dios terrible?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível ?Es, pues, tu pecho eterno, ineroxable
De vingança e rancor?… de venganza y rencor?
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime ?Qué es lo que hice Señor? Que tosco crimen
Eu cometi jamais que assim me oprime Cometí, jamás, que de este modo me oprime
Teu gládio vingador?! Tu sable represor?
………………………………….
Foi depois do dilúvio… um viadante, Fue luego del diluvio.. un viandante
Negro, sombrio, pálido, arquejante, Negro, sombrío, pálido, jadeante,
Descia do Arará… Que bajaba de Arará…
E eu disse ao peregrino fulminado: Yo le dije al peregrino fulminado:
“Cam! … serás meu esposo bem-amado… “Cam! … serás mi esposo bienamado…
— Serei tua Eloá. . . “ — Seré tu Eloá. . . “
Desde este dia o vento da desgraça Desde este día el viento de la desgracia
Por meus cabelos ululando passa Por tus pelos aullando pasa
O anátema cruel. El anatema cruel.
As tribos erram do areal nas vagas, Las tribus erran del arenal a la ciénaga
E o nômade faminto corta as plagas El nómada hambriento corta las sendas
No rápido corcel. Con su rápido corcel
Vi a ciência desertar do Egito… Vi a la ciencia desertar a Egipto
Vi meu povo seguir — Judeu maldito — Vi a mi Pueblo seguir- judío maldito-
Trilho de perdição. Sendero de la perdición.
Depois vi minha prole desgraçada Luego vi mi prole desgraciada
Pelas garras d’Europa — arrebatada — Por las garras de Europa, arrebatada,
Amestrado falcão! … !Amaestrado halcón!
Cristo! embalde morreste sobre um monte !Cristo! En vano moriste en un monte
Teu sangue não lavou de minha fronte Tu sangre no lavó de mi frente
A mancha original. La mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso, Aún hoy son, por sino adverso,
Meus filhos — alimária do universo, Mis hijos- alimaña del universo,
Eu — pasto universal… Yo- pasto universal…
Hoje em meu sangue a América se nutre Hoy en mis venas América se nutre
Condor que transformara-se em abutre, Condor que se convierte en buitre
Ave da escravidão, Ave de la  esclavitud,
Ela juntou-se às mais… irmã traidora Ella se unió a las demás, hermana traidora
Qual de José os vis irmãos outrora Como de José, sus viles hermanos otrora
Venderam seu irmão. Vendieron su virtud (a su Hermano)
Basta, Senhor! De teu potente braço !Basta Señor! De tu potente brazo
Role através dos astros e do espaço Descienda a través de los astros y el espacio
Perdão p’ra os crimes meus! Perdón para todos mis pecados
Há dois mil anos eu soluço um grito… Hace dos mil años que exclamo y grito
escuta o brado meu lá no infinito, Escucha mi bramar allá en el infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!… !DIos mío! Señor, ¡Dios mío!

São Paulo, 11 de junho de 1868

Tradução Aline Fagundes nov 2013

Breve Resenha do artista:

Castro Alves (1847-1871) nasceu na fazenda Cabaceiras, antiga freguesia de Muritiba, perto da vila de Curralinho, hoje cidade Castro Alves, no Estado da Bahia, em 14 de março de 1847. Filho do médico Antônio José Alves, e também professor da Faculdade de Medicina de Salvador, e de Clélia Brasília da Silva Castro.

No ano de 1853, vai com sua família morar em Salvador. Estudou no colégio de Abílio César Borges, onde foi colega de Rui Barbosa, Demonstrou vocação apaixonada e precoce pela poesia. Em 1859 perde sua mãe. Em 24 de janeiro de 1862 seu pai casa com Maria Rosário Guimarães e nesse mesmo ano foi morar no Recife. A capital pernambucana efervecia com os ideais abolicionistas e republicanos e Castro Alves recebe influências do líder estudantil Tobias Barreto.

Castro Alves publica em 1863, seu primeiro poema contra a escravidão “A Primavera”, nesse mesmo ano conhece a atriz portuguesa Eugênia Câmara que se apresentava no Teatro Santa Isabel no Recife. Em 1864 ingressa na Faculdade de Direito do Recife, onde participou ativamente da vida estudantil e literária, mas volta para a Bahia no mesmo ano e só retorna ao Recife em 1865, na companhia de Fagundes Varela, seu grande amigo.

Castro Alves inicia em 1866, um intenso caso de amor com Eugênia Câmara, dez anos mais velha que ele, e em 1867 partem para a Bahia, onde ela iria representar um drama em prosa, escrito por ele “O Gonzaga ou a Revolução de Minas”. Em seguida Castro Alves parte para o Rio de Janeiro onde conhece Machado de Assis, que o ajuda a ingressar nos meios literários. Vai para São Paulo e ingressa no terceiro ano da Faculdade de Direito do Largo do São Francisco.

Em 1868 rompe com Eugênia. De férias, numa caçada nos bosques da Lapa fere o pé esquerdo, com um tiro de espingarda, resultando na amputação do pé. Em 1870 volta para Salvador onde publica “Espumas Flutuantes”.

Antônio Frederico de Castro Alves, morre em Salvador no dia 6 de julho de 1871, vitimado pela tuberculose.

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