Ester observa, apoiada na porta de vidro aberta, os raios de luz que clareiam o Jacarandá do pátio vizinho, concedendo-lhe áureo mistério, uma aparência quase mística; essa luz também denuncia uma infinidade de insetos, que de tão minúsculos, se confundem com o pó e o pólen que flutuam no ar primaveril. Distingue o canto de quatro ou cinco pássaros, dentre os 270 tipos diferentes que habitam Buenos Aires, e celebra por dentro a vitória do belo sobre o feio,  já que esse canto dissimula o barulho dos prédios em construção. Nos Bosques de Palermo, a poucos quarteirões de distância, há árvores centenárias onde canários, bem-te-vis e catorras alinham-se, formando um coro de louvor diário.  A combinação dessas notas é um instinto que materializa-se em música, analisa Ester com os ouvidos cativos. Um instinto, código armazenado, base de vozes inconscientes que se entrelaçam, mas que logo, irremediavelmente, continuarão por caminhos distintos. É lógico, pensa, assim funciona a vida, em constante simbiose: o caso do sol e da lua que sempre caminham em paralelo, porque um não existe sem o outro. Talvez por isso- seu pensamento se detém por um instante, temeroso- sinto que nasço e morro diariamente, porque a morte e a vida são linhas perpendiculares, forças complementares.
Ela atravessa a porta de vidro intoxicada pelos gases do seu pensar vertiginoso. Já na pequena varanda do apartamento, coloca-se em frente a um vaso retangular de cerâmica. Começa a mexer na terra. Suas mãos apresentam uma sensibilidade acidental, portanto a terra, de repente, parece embrenhar-se na sua epiderme, transformando-a. Esfrega os dedos procurando as ocultas marcas digitais. Só a brisa que sopra- rajadas de vento inesperadas, selo de Buenos Aires- é capaz de trazê-la de volta à este momento, à sua diminuta varanda. Acaricia o bonsai que repousa no vaso, pega a tesoura e começa a podá-lo cuidadosamente.
Esta árvore foi um presente de uma sábia amiga brasileiro-japonesa. Elas se conheceram em uns encontros de meditação no bairro de Palermo e Nikito inspirou-lhe de cara enorme paz, ensinou-lhe muito sobre a virtude da paciência ao longo dos últimos três anos. Decide ligar pra ela:
– Oi querida! Tudo bom?
– Olá amiga, tudo ótimo! Agora tô saindo pra pegar o Lucas no colégio. Lembra que ele hoje apresentava o projeto de química ao comitê de professores? Pois é, ele me ligou dizendo que tudo correu muito bem e que acredita que obterá a nota que precisa pra passar de ano! Tô super feliz!
– Que maravilha! Eu sabia que o Lucas ia se sair bem. Ele é muito inteligente.
– Mas diga lá, e você, tudo bem? Como vão os trâmites da mudança?
– Ai, sabe como é que é… Muita papelada, além do trabalhão que dá vender todas as coisas que tenho. Não vale a pena pagar excesso de bagagem pra levar pertences inúteis…
– Lógico. Eu posso te ajudar com o que você precisar. Conte comigo, já sabe! Caramba, vou chegar atrasada. Devo desligar. Posso te ligar mais tarde?
– Sim, sim, vai lá. Depois a gente conversa
Ester começa a fazer uma xícara de chá detox de melão, gengibre, eucalipto e mel, um dos seus sabores favoritos. Costuma tomá-lo em ocasiões de comemoração: está feliz em saber que o Lucas se destacou.
Senta-se no único puf que restou na sala, com a xícara na mão, e olha ao redor. Sua casa, antes armada com as mobílias certas, as cores ideais, agora é um deserto de úmidas lembranças. Uma solidão indescritível invade seu peito e chora como uma criança
Saindo à superfície desse poço, ergue seus ombros e encosta o couro cabeludo na parede, no meio de um quadro branco com moldura preta, uma espécie de obra de tempo, restos y permanência. Recorda as últimas semanas, a correria, os encontros farewell organizados, a amável e triste Nora que comprou-lhe diversos artigos usados; praticamente a sala inteirinha. Nora chegou com o nariz quase colado ao pescoço: dava pena. Quando se atreveu a olhar pra cima, o primeiro que perguntou foi porque a Ester mudava de país, cuspindo sílabas suplicantes. Ester respondeu que mudava-se por causa da família e tratou de mostrar-se contente. Nora forçou um sorriso mentiroso, apoiou as mãos calejadas sobre a barra da cozinha e dedicou-lhe um olhar morto. Então a Ester notou que ela precisava constatar, na verdade, se alguém mais passava por uma mudança drástica e inesperada; precisava não sentir-se só na desgraça. Concluindo Nora, enquanto contidas lágrimas se formavam em seus olhos, afirmou: somente podemos contar com a família e os amigos… Nunca com os homens. Acredito que o seu retorno à casa é positivo.
Ester sorriu, basicamente porque não sabia o que dizer, melhor dito, não sabia se podia dizer algo mais. Nora interpretou o seu sorriso como um consenso, ou simplesmente não se conteve mais, e acabou despejando – falou com tanta urgência que mais parecia vomitar- que havia terminado com o seu namorado, com o qual levava apenas um ano de convivência, e sentia-se culpada, frustrada, pelo fato de terem durado tão pouco como matrimônio, depois de quase dez anos de relacionamento. Ester, torcendo pra finalizar a conversa, sussurra: tudo é um processo, portanto a novidade é necessária e sempre proveitosa. Sussurrou sem pensar, como que tirando um papel do bolso e recitando o que estava escrito por outra pessoa. Foi uma situação muito constrangedora. A Nora, do nada, abraçou-a com tanta força que quase quebrou-lhe as costelas. Contudo Ester sentiu-se útil, satisfeita de ter contribuído, sem saber exatamente o alcance de sua contribuição.
Com a xícara na mão, acreditando que os atos valem mais que mil palavras, remói que a palavra bem intencionada, no momento certo, faz uma grande diferença. Quantas vezes dizemos realmente o que os outros precisam escutar, em um ato de doação genuíno? Sem que a mensagem veja-se tingida de raiva, temor ou orgulho? … É, dizer a palavra certa  sem esperar nada em troca, sem nenhum rastro da natural contaminação oriunda do conhecer-se, das desconfianças latentes, dos desejos encontrados, é todo um desafio…
Obcecada com a ideia, Ester bebe o chá tão rápido que termina engasgando-se. Preciso tomar ar fresco, pensa, então pega a bicicleta e se dirige aos Bosques de Palermo.
O céu está desbotando-se, regenerando-se, morrendo para renascer como céu novamente. Ela sente a sua caixa torácica ampliada e uma sensação desconcertante enquanto pedala,  porque experimenta, intensamente, uma liberdade sem rosto, sem forma: assustadora.
Circula devagar,  em volta do lago, saboreando a débil luz que o ilumina. Há uma entidade que paira invisível sobre o topo de palos borrachos, sauces, palmeras e tipas, árvores que moram na ilha, e sobre seu coração alvoroçado. Pára de pedalar, se senta em um dos bancos e, ainda com palpitações, contempla os cisnes que atravessam o asfalto.  Que loucura! Vão morrer atropelados! grita internamente. Entretanto os cisnes, apesar do receio, conseguem chegar ilesos e aterrissam na água com uma pompa só compatível, segundo a lógica, com um estado de inconsciência diante do perigo.
Enquanto recobra-se do susto, percebe novamente essa presença, esse espectro representado pelo sol, água trêmula, animais, vento, almas em pena. Presença que a acende, intuição cintilante, invisível, abrangente. Adoraria saber voar para chegar bem alto, cruzar a estratosfera se preciso, e assim verificar se essa presença acaba, tem um formato e um caminho.
Faz frio nas tardes de primavera em Buenos Aires. O canto dos pássaros, o baile das flores, aquieta-se, e o parque parece um mágico cartão postal. Ester pega a bicicleta, com intenção de regressar à casa, mas começa a dar voltas sem destino.  Por um momento dúvida  se o apartamento onde passou os últimos anos de sua vida é ainda seu lar. Hoje é um espaço semi-vazio, lugar onde ontem a solidão vivia acompanhada pelos livros, pela imaginação, pelos amigos. Agora ela vaga sozinha entre o resto de coisas e memória.
Pedala com sofreguidão, parindo lágrimas contra o vento, até que, no meio de atribulados pensamentos, ela lembra da visita agendada com os compradores da cama. Deve retornar ao apartamento quanto antes.
O casal jovem chega pontual ao encontro. Já estão na porta do prédio quando a Ester aparece.  A mulher carrega uma neném lindíssima, dona de umas bochechas rosadas, uns olhos puxados de mapuche e um cabelo grosso como o solo lunar. A neném sorri-lhe e a Ester encara a mãe da criatura com expressão de ingenuidade, procurando aprovação no rosto dela para acariciar a sua filha. Durante o percurso da visita, Ester presta mais atenção às caretas, brincadeiras e jogos que o pai efetua e a bebê retribui, convulsionando-se no colo da mãe e observa a conduta da criança, que naturalmente desconhece o lugar mas não o rejeita por isso, ao contrário, se interessa em explorá-lo. E pensa, uma criatura tão nova, pura, que ignora razões, é uma folha em branco que contêm conceitos de instinto e fé, sem vestígios de dialética.
Logo observa os pais. Um casal em agradável sintonia: ela, com sua fala amorosa e singela, e ele, viril protetor, cujos olhos exclamam admiração ao se encontrar com os dela.
Concluídas as transações comerciais de praxe, o casal vai embora. Ester está contente como se houvesse recebido amigos em casa, grato costume que a preenche. Nota que a harmonia dessas pessoas a contagiou, e outra vez  afirma que é talvez suscetível demais aos problemas alheios.  Aliás, fazendo jus a sua afirmação, bate com a palma da mão na testa e diz: tenho que finalizar a proposta, esse interminável Business Case, para que, de uma vez, possamos reestruturar a equipe.
Senta-se no puf, pega o computador e deposita-o sobre as pernas. Abre o Outlook porque deve consultar um email para desenvolver a proposta. Na caixa de entrada vê uma mensagem da sua chefe cujo título indica Move to Brazil e decide abri-la em seguida.
O espanto que paulatinamente vai  se revelando no rosto de Ester é desconcertante para mim, como narrador: provoca-me uma pena infinita e embaralha os meus pensamentos, fazendo-os um maçarico de impotência. Mas prossigo, sou apenas um comunicador.
O fato é que a Ester desaba por completo: até as rugas do seu rosto tornam-se mais profundas por conta das lágrimas que as navegam como rios caudalosos. Neste momento, curiosamente, lembra da Nora, da sua vulnerabilidade, e deseja ligar pra ela, gritar que ela não está sozinha, que ninguém está imune a decepção.
Toca o telefone. Ester não atende, levanta-se e vai ao banheiro pra lavar o rosto. O telefona toca de novo. Desta vez a Ester atende.
– Alô, diz com a voz rouca
– Oi lindona, tudo bom? Tá com a voz estranha…
– Oi amiga, desculpa, tô bem chateada viu… Recebi um email da minha chefe dizendo que ela cometeu um erro ao me afirmar que o salário que me ofereceu não era líquido e sim bruto.
– Quê?! Ui… então isso significa que você vai ganhar bem menos do que esperava, né? Quanto é o que descontam mesmo de INSS, IRPF, etc?
– 39% mais ou menos…
– Nossa! Pra que depois os nossos políticos, corruptos, roubem tudo no lugar de investir em educação e saúde. Ai, quê vergonha Senhor! Lamenta Nikito.
-Bom, mas agora o importante é entender a sua situação amiga, o que você vai fazer? Vai voltar  para o Brasil mesmo assim?
Ester,  primeiro diz não saber, logo xinga a sua chefe, a sua empresa, brama frases desconexas, até que, subjugando sua própria indignação, acaba por afirmar que não tem mais remédio que aceitar e se cala. Nikito fica em silêncio, esperando uma nova rajada de palavras doloridas e terapêuticas.  E, efetivamente, ela continua.
– Para quê tudo isso?! Afinal vou morar no Brasil ganhando pior que na Argentina. Não tem cabimento…
A Nikito propositalmente muda de assunto, compreendendo que a Ester não tem escolha e portanto é melhor não aprofundar no ocorrido.
– Como foi a aniversário do seu sobrinho? Vi algumas fotos postadas no Facebook. Ele estava muito fofo. É impressionante como o tempo passa… O vi nascer e ele já tá enorme menina!
– Pois é… Em pensar que há apenas um ano e meio ainda engatinhava. As crianças me estimulam muito: elas crescem, sem intenção, sem travas. Também sem volta atrás. O tempo é invencível…
– Invencível e relativo, Ester. O tempo também é filho das decisões individuais, das aprendizagens percebidas.
Ester medita por uns instantes e cita o que lhe ocorreu no parque
– Você sabe que eu sempre gostei de pedalar, da sensação do vento no meu rosto. Pois bem, há poucas horas, quando fui com a bicicleta passear no parque, senti desconforto por causa do vento, da liberdade indivisível que ele me produz. Uma forte angústia me possuiu, como se essas rajadas em vez de soprar-me pra frente, tentassem me derrubar da bicicleta, arrojando-me num abismo desconhecido.
– Talvez porque o vento continue soprando, continue sendo um estímulo pra você, só que agora ele sopra em outra direção. Mas ninguém diz que isso é necessariamente ruim
– Bom, sentir angústia não é muito agradável…
– A febre não é prazerosa porém serve para indicar alguma infecção no corpo. Sem ela não haveria chance de mudar o curso da doença.
Ester se irrita bastante. Não está para bate papo karmático neste momento.
– Nikito, desculpe, mas agora eu só consigo sentir raiva. Sinto-me enganada. Quê diabo de febre é essa?! O que eu tenho é um mal milenário e humano, simples sintoma de uma injustiça…
– ok, compreendo. Mas lembre-se então dos motivos que te levaram a pedir a transferência para o Brasil.
– Tá bom, tá bom… Querida, vou desligar. Vou tomar um banho e relaxar um pouco. Pelo menos o chuveiro não foi retirado! Ester brinca, com magoado sarcasmo
Pega o computador novamente.  Olha as fotos do seu sobrinho no Facebook.  Sente dor de cabeça. Levanta-se e se dirige ao quarto. Encara-se na porta espelhada do armário embutido. Vê os seus olhos inchados, as rugas na testa e pensa, gostaria de renovar o guarda-roupa… Qual é o meu estilo? Recorda de todos os tipos de roupa que já vestiu, as modas que viveu, como se sentia em cada etapa, como essas roupas a descreviam. Reflete sobre como veste-se hoje e sobre o que transmite à sociedade. Qual é o meu lugar no mundo?, é a ideia que acaba por se instalar na sua cabeça dolorida.
Retorna ao computador, olha as fotos do sobrinho no Facebook e sorri. Lembra da sua infância, embaixo da Laranjeira, vendo o pai jogar futebol ; da sua adolescência, nas horas que passava escutando a música da mãe, lendo as letras em inglês ou espanhol, tentando aprendê-las com o dicionário ao lado; dos poemas que escreveu para o primeiro namorado, aquele amor tóxico que a perturbou durante décadas. Uma vontade súbita de escutar música a impregna, então abre o YouTube e acha um vídeo sugerido. Clica no vídeo; trata-se de um show ao vivo do cantor de salsa, Óscar de León, em Cali, Colombia. O cantor, com todo seu swing natural, sacode os quadris e os ombros exorcizando energia em cada canto do corpo. A canção que toca, Llorarás , a transporta aos seus vinte e poucos anos em Madri, àqueles clubes de salsa, àquele amor ideal e veemente. E assim sua consciência degusta as estáticas cenas, as palavras antigas, o papel protagonista e os silêncios antagônicos. Outra vez a imagem da Nora mistura-se com seus demônios, penetra nos  poros de sua mente. Os seus lábios esticam-se de leve e sua língua remexe na boca, saboreando a doçura de pretéritas auroras. Toca a campainha. Ester atende.
Flávia está parada na porta do prédio, enquanto um opala preto a espera do outro lado da calçada. Ester e Flávia sobem as escadas até o primeiro D. Ester nota que ela tem dificuldades de subir os degraus, já que a ouve queixando-se de dor nas costas. E fica desconfiada pelo homem que não se ofereceu para ajudar a carregar tanta tralha. Ele é o seu maridoFlavia responde que sim, com a cabeça baixa.  
E não vai ajudar? 
-Ele não queria que eu viesse…
– Por quê?
-Porque tá sem emprego e não aceita que eu compre as coisas da casa.
-Hum, situação chata né… Faz muito tempo que ele tá desempregado?
Uns cinco anos pelo menos. A gente se apanha com o meu salário de recepcionista e com essas ajuda do governo. O meu marido teve um acidente, sabe, e ficó sem poder trabalha. Mas o probrema agora é otro senhora… O probrema é o buteco do lado de casa. Graças a Deus tenho um patrão muito bom. Ele é pediata, pedriata, sei lá; atende a molecada. Ele é tão bom que tá me ajudando com a gravidez assim não tenho que gasta dinheiro com remédio, nem médico.
– Você tá grávida?! Não tinha nem reparado! De quantos meses?
– Acho que tô de cinco.
– Nossa… Você não engordou nada…
– É… Diz o meu patrão que é por causa do estres, que eu como mal. Vou seguir a dieta que ele mandou. Por isso que eu quero o liquificador que a senhora tá vendendo… Quanto é que é mermo?
–  Bom, o que mais você vai comprar? Talvez eu possa  fazer um desconto extra.
Só posso comprar agora a cômoda, o liquificador e o armário branco do banhero.
– Tá bom. O liquidificador vai de presente.
– Nem sei como lhe agradecer… despeja Flávia, incrédula por tanta generosidade.
– Não tem nada que agradecer. A verdade é que fico feliz em que você e seu filho tirem melhor proveito do liquidificador do que eu. Mas diga lá: como vamos descer a cômoda sozinhas? Você está grávida e não convém que carregue peso assim.
Flávia sacode os ombros. Ester hesita em indagar mas afinal reitera: posso pedir ajuda ao seu marido?
Flávia estremece inteira mas não parece abalada pela pergunta, porque no fundo deseja que alguém sugira o que a Ester sugeriu, o que ela não tem coragem de reclamar. Então balança afirmativamente a cabeça.
Descem juntas, Ester carrega o armário pequeno de banheiro e a Flávia o liquidificador. O marido, um homem tosco e agigantado, está de pé, encostado no opala preto com cara de poucos amigos. A rua está movimentada, são oito horas e as pessoas, depois do trabalho, estão nos supermercados, nas lojas do bairro; os passarinhos dormem e as buzinas perturbam, sempre acordadas.O marido dirige a Flávia um olhar alarmante e abre a mala do carro sem vontade. Ester sente um pequeno arrepio na espinha. O marido a cumprimenta secamente, pede que deixe o armário branco no chão da rua e logo arranca o liquidificador das mãos da Flávia. Ester retém os impropérios que povoam a sua boca quando ao elevar seu olhar do chão, ao passá-lo ao longo das canelas e braços da Flávia, percebe vários hematomas impressos no corpo dela. Parecem-lhe marcas de agressão física e vendo a atitude do marido, as atribui aos seus ataques de fúria. Mas não fala nada. Observa o casal e pode sentir o medo que vibra em cada gesto da Flávia. Só quer que retirem a cômoda, então diz de supetão: o senhor me desculpe mas preciso que me ajude a descer a cômoda. O marido tira a cabeça bruscamente de dentro do porta-malas, olha de imediato à Flávia e responde: tô com pressa senhora. A Ester olha para a Flávia, vara verde com lábios franzidos e olhos cheios d’água, então decide que eles devem ir embora porque não quer gerar maior confusão.
Tudo bem. Talvez vocês possam voltar outro dia, diz Ester. O marido assente e logo faz um gesto com a cabeça ordenando à Flávia que entre no carro. A Ester acompanha a situação, com um certo tremor nas pernas. Não me pagaram, pensa ao mesmo tempo que vê o marido apertando o braço da Flávia, já no banco do carona. Melhor deixar pra lá, melhor chamar a polícia. Chau! Acena enquanto o opala sai disparado, sem parar nos cruzamentos, sem se despedir. Tenta ler a placa: é inútil, está deteriorada, ilegível.

Ester entra no apartamento e se dirige diretamente ao bonsai. Seu coração ainda bate acelerado e fica pensando no que deveria ter feito. Todo esse desgaste a deixa faminta, então sai pra comprar comida. Esperando a preparação da salada que pediu, justifica-se internamente pelo fato de não ter tomado uma atitude diante do verdugo. Fiquei travada… Sabe-se lá o que esse cara é capaz de fazer. Talvez fosse até pior pra Flávia se eu me intrometesse… Preciso contar isso pra Nikito, pensa. Volta pra casa correndo e liga pra ela:
– Oi amiga, já tá dormindo? Desculpa, talvez seja um pouco tarde…
– Tudo bem. O Lucas já tá dormindo e eu to me preparando pra dormir. O que houve?
Ester conta o episódio da Flávia e do marido, dividindo o sentimento de culpa que a consome.
– Você tinha marcado com eles?
– Sim, mas tinha esquecido completamente. Achei muito estranho o cara não ter subido pra ajudá-la e quando vi a reação dele na porta do meu prédio, senti raiva e medo. Não sei como a Flávia suporta isso!
– Pois é… E é ela quem ganha o dinheiro. Quem sabe quais são os seus motivos?…
– Fico pensando nessas pessoas: na Nora- lembra da mulher triste que me abraçou?- no casal apaixonado e sua bebê com feições de índia, e agora, no terrível drama da Flávia… Que complicadas são as relações humanas!!
– Principalmente porque não sabemos o que queremos e tomamos decisões, as vezes, daninhas.
– Fiquei com muita pena dela…
– Você pelo menos a beneficiou com os artigos grátis que levou. O resto é livre arbítrio, dizem… Aliás, já vendeu tudo?
– Falta pouca coisa. Tô viajando depois de amanha. Você vai me levar no aeroporto afinal?
– Levo sim. Vou com o Lucas. Nikito boceja e diz, Amiga, vamos descansar, a gente se fala amanha.

Passam os dois dias num piscar de olhos. Finalmente a Ester está no Brasil. Há de viajar do Rio de Janeiro a São Paulo para assinar uma papelada. No aeroporto de Santos Dumont, já na porta de embarque, encontra-se surpreendentemente com o seu primeiro grande amor: Sérgio. Durante o vôo fica sabendo que ele está divorciado, tem uma filha, que seguiu com o negócio familiar. Saem pra jantar nesta mesma noite e acabam dormindo juntos.

Ester, ao retornar de São Paulo, procura desesperada os poemas que escreveu na adolescência, aspirando sustentar as imagens borradas que perambulam na sua cabeça e se misturam com o cheiro, o sabor do Sérgio, todavia incrustados no seu corpo. Durante o último encontro, a chama do passado reacendeu no seu peito e iluminou o seu ventre, os corpos sem jeito, esse momento perene. Mas, como sempre, sopra o vento arrastando dias, eventos, tentativas; eliminando certezas e velharias.

Ester afinal assina o contrato com a empresa, apesar da desmotivação que sente. Ultimamente, não tem vontade de nada, está muito cansada, e o atribui à recente mudança.  Passam os seguintes dois meses desde sua chegada, a Ester focada na família e num projeto pessoal. Até que um dia se sente mal e desconfia. Vai até a farmácia. Volta para casa e se tranca no banheiro. Com um ataque de gargalhadas e pranto, se mete no chuveiro.
Sai molhada- sente um calor insuportável- e desde a porta, vê o bonsai no novo canteiro. Nota que lhe nascem novos galhos e sorri entusiasmada. Se enxuga um pouco e pega o telefone:
– Oi Nikito! Amiga, pode falar? Tenho que te contar uma super notícia… Tá sentada?
– Ai, ai, não me assusta. Fala logo!
– Eu tava me sentido mal e fui à farmácia. Lembra do encontro com o Sérgio?
– Sim, e dai?! O que tem a ver?!
– E daí, querida, é que eu acho que tô grávida

FIM

Anuncios

Comenta aquí / Deixe seu comentário

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión / Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión / Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión / Cambiar )

Google+ photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google+. Cerrar sesión / Cambiar )

Conectando a %s