Poema A lucidez perigosa

A lucidez perigosa La peligrosa lucidez
Estou sentindo uma clareza tão grande Padezco una enorme claridad
que me anula como pessoa atual e comum: que me anula como persona actual y común:
é uma lucidez vazia, como explicar? es una lucidez vacía, ¿cómo explicarla?
assim como um cálculo matemático perfeito Como cálculo matemático perfecto
do qual, no entanto, não se precise. que, sin embargo, no es necesario
Estou por assim dizer Puedo, cómo explicarlo,
vendo claramente o vazio. viendo con claridad el vacío.
E nem entendo aquilo que entendo: Y ya ni entiendo lo que entiendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma, pues soy infinitamente mayor de lo que era antes
e não me alcanço. y ya no me alcanzo.
Além do que: Además:
que faço dessa lucidez? ¿Qué hago con esta lucidez?
Sei também que esta minha lucidez Sé también que mi lucidez
pode-se tornar o inferno humano puede resultar infernal
– já me aconteceu antes. – ya me ha sucedido…
Pois sei que Pues sé que
– em termos de nossa diária – frente a nuestra diaria
e permanente acomodação y permanente acomodación,
resignada à irrealidade – resignada a la irrealidad-
essa clareza de realidade este resplandor de realidad
é um risco. es todo un riesgo.
Apagai, pois, minha flama, Deus, Apague, pues, mi llama, Dios
porque ela não me serve porque en verdad no me sirve
para viver os dias. para vivir mis días.
Ajudai-me a de novo consistir Ayúdeme a consistir, de nuevo,
dos modos possíveis. de todas las formas posibles.
Eu consisto, Yo consisto,
eu consisto, yo consisto,
amém. amén.

Clarice Lispector (1920-1977) foi escritora e jornalista brasileira,  nasceu em Tchetchelnik na Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920. Filha de família de origem judaica, Pinkouss e Mania Lispector. Sua família veio para o Brasil em março de 1922, para a cidade de Maceió, Alagoas, onde morava Zaina, irmã de sua mãe. Nascida Haia Pinkhasovna Lispector, por iniciativa do seu pai, todos mudam de nome, e Haia passa a se chamar Clarice.

Em 1925 mudam-se para a cidade de Recife onde Clarice passa sua infância no Bairro da Boa Vista. Aprendeu a ler e escrever muito nova. Estudou inglês e francês e cresceu ouvindo o idioma dos seus pais o iídiche. Com 9 anos fica órfã de mãe. Em 1931 ingressa no Ginásio Pernambucano, o melhor colégio público da cidade.

 Em 1937 muda-se com a família para o Rio de Janeiro, indo morar no Bairro da Tijuca. Ingressa no Colégio Silva Jardim, onde era frequentadora assídua da biblioteca. Ingressa no curso de Direito. Com 19 anos publica seu primeiro conto “Triunfo” no semanário Pan. Em 1943 forma-se em Direito e casa-se com o amigo de turma Maury Gurgel Valente. Nesse mesmo ano estreou na literatura com o romance “Perto do Coração Selvagem”, que retrata uma visão interiorizada do mundo da adolescência, e teve calorosa acolhida da crítica, recebendo o Prêmio Graça Aranha.

 Clarice Lispector acompanha seu marido em viagens, na carreira de Diplomata no Ministério das Relações Exteriores. Em sua primeira viagem para Nápoles, Clarice trabalha como voluntária de assistente de enfermagem no hospital da Força Expedicionária Brasileira. Também morou na Inglaterra, Estados Unidos e Suíça, sempre acompanhando seu marido.

 Em 1948 nasce na Suíça seu primeiro filho, Pedro, e em 1953 nasce nos Estados Unidos o segundo filho, Paulo. Em 1959 Clarice se separa do marido e retorna ao Rio de Janeiro, com os filhos. Logo começa a trabalhar no Jornal Correio da Manhã, assumindo a coluna Correio Feminino. Em 1960 trabalha no Diário da Noite com a coluna Só Para Mulheres, e lança “Laços de Família”, livro de contos, que recebe o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro. Em 1961 publica “A Maçã no Escuro” pelo qual recebe o prêmio de melhor livro do ano em 1962.

 Clarice Lispector sofre várias queimaduras no corpo e na mão direita, quando dorme com um cigarro aceso, em 1966. Passa por várias cirurgias e vive isolada, sempre escrevendo. No ano seguinte publica crônicas no Jornal do Brasil e lança “O Mistério do Coelho Pensante”. Passa a integrar o Conselho Consultivo do Instituto Nacional do Livro. Em 1969 já tinha perto de doze volumes publicados. Recebeu o prêmio do X Concurso Literário Nacional de Brasília.

 A melhor prosa da autora se mostra nos contos de “Laços de Família” (1960) e de “A Legião Estrangeira” (1964). Em obras como “A Maçã no Escuro” (1961), “A Paixão Segundo G.H.” (1961) e “Água-Viva” (1973), os personagens, alienados e em busca de um sentido para a vida, adquirem gradualmente consciência de si mesmos e aceitam seu lugar num universo arbitrário e eterno.

 Clarice Lispector, escreveu “Hora da Estrela” em 1977, onde conta a história de Macabéa, moça do interior em busca de sobreviver na cidade grande. A versão cinematográfica desse romance, dirigida por Suzana Amaral em 1985, conquistou os maiores prêmios do festival de cinema de Brasília e deu à atriz Marcélia Cartaxo, que fez o papel principal, o troféu Urso de Prata em Berlim em 1986.

 Clarice Lispector morreu no Rio de Janeiro em 9 de dezembro de 1977. de câncer no ovário e foi enterrada no cemitério Israelita do Caju.

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