Olho pela janela. O sol profere bons augúrios logo de vários dias de chuva. Lá fora tudo brilha com uma aura caleidoscópica. Vejo as úmidas cores externas, enquanto lembro dos acontecimentos que fizeram o  meu coração palidecer e ressecar-se.

Ainda temo dizer seu nome em voz alta. Cada sílaba produz um refluxo amargo que queima desde o estômago até a faringe, também meus pensamentos lentamente, devido ao hálito corrosivo.

Antes de conhecê-lo, eu caçava as horas; cada minuto tinha suma importância, sempre à serviço da minha voracidade de romanticismo.

Sinto saudades dessa esperança descompromissada. Sei que a ideia de ser um só, de se fundir como metais brandos, já não existe  para mim. Confesso, porém, que cada vez que recordo a emoção do amor correspondido todo o meu corpo sorri.

Neste quarto vivem os indícios, fonemas fantasmagóricos, cápsulas de sensações guardadas que pairam no ar; a paixão, a traição, a insegurança, a carência, tudo que nos uniu todavia ecoa estridente nos cantos deste lugar. Mas o engraçado é que este mesmo quarto é uma espécie de fortaleza psicológica, de onde raras vezes saio, onde sinto que as horas caem insulsas sobre a minha memória vazia de novidades, tão ocupada com uma recorrente melodia de dó e fá, composta de graves. Os ponteiros do relógio já não fazem tic-tac, mas sim glub, glub, devido aos diversos medicamentos que ingiro e me mantém desta maneira: ausente enquanto presente; amarrada ao passado enquanto o mundo gira.

Logo após a sua morte, senti imenso alívio e me dediquei integralmente ao trabalho. Afinal minhas filhas já eram adultas e eu precisava preencher a minha cabeça com satisfatórias atividades. Essa decisão terminou sendo outra cilada. Pelo menos isso é o que diz o meu psicólogo.

Agora, contando tudo isso, lembro das minhas sessões com o ele (o psicólogo) nessa época: afirmava que todos temos liberdade de escolha e que eu deveria refletir sobre em quê pessoas ou situações deposito minhas expectativas de reconhecimento ou aceitação. Insistia que trata-se de uma conduta auto-destrutiva. Todavia me questiono quais eram, e são, as verdadeiras motivações das minhas escolhas.

Sinto o sol sobre o meu rosto,  onde escorrem as gotas de suor frio. Meu coração está acelerado; respiro entrecortado: a angústia novamente consome o meu peito… ai Senhor, será outro ataque de pânico? Não, não pode ser… já tomei o remédio! 

Tento contornar a crise vendo a existência que corre lá fora.  Não retenho nenhum detalhe, só preciso relaxar. Permitam-me um segundo…

Um ano depois do seu suicídio. Quando o meu último marido morreu, um ano foi o tempo que me mantive equilibrada na corda-bamba das emoções que sentia. Dedicando toda minha energia ao trabalho, consegui não ter espaço para pensar no que tinha acontecido. Durante esse período, consegui não pensar na carta de despedida que ele escreveu, nessa que a sua mãe me leu no dia do enterro, onde ele dizia que sem mim não valia mais a pena viver. Evitei a toda custa escutar as acusações que investi contra mim mesma, todas essas que ainda costumam martelar a minha cabeça e não me deixam dormir.

Sim, consegui fugir somente por um ano. Estava a ponto de perder outro amor na minha vida: o trabalho. Ocorreu que um grupo de diretores hipócritas da companhia- essa na qual cresci como um membro da família, à qual dediquei mais de vinte anos de carreira- organizou a minha pré-aposentadoria porque eu sabia demais, era uma ameaça diante do contexto político-corporativo no qual nos encontrávamos.

Quando forçosamente me aposentei, senti que as paredes do mundo inteiro se estreitavam ao meu redor. A imensidão do túnel escuro, pestilento, sem propósito, em que se tornara a minha vida, me enjoou até o ponto de me fazer vomitar em várias ocasiões.

Então eu me escondi. Me isolei. Impus-me uma solidão culposa sem precedentes. Com o tempo, e muita análise, percebi que a solidão tem o seu tempo específico, conforme à intensidade da imaginação que a alimenta.

Alívio. O Sol esquenta as velhas gotas frias que agora se partem como cartolina endurecida; assim como as palavras rígidas, rasgam-se a cada frase que cai dos meus lábios, já soltas e leves. Despencam como os raios de sol, arrastando-se pelas paredes do prédio, da minha boca, tratando de se incrustar para não desaparecer, para não dissolver-se no vento ou no hálito.

Já é hora da visita ao psicólogo. Abro o roupeiro e pego um vestido estampado, ainda na caixa, presente da minha filha. Enquanto o retiro, um cartão cai no chão. Quê loucura! Nem tinha percebido o tal cartão… De novo a pesada sensação de culpa, as gotas de suor começam a empapar o meu cabelo, mas consigo ler a frase na minha frente: vó, felis anivesalio! Ese disenho e pa voce. Eu te amo. Dede

Ai, meu neto, lembro da transparência dos seus olhos, da ansiada esperança refletida neles, essa vontade de crescer, ser grande, sem pré-meditações.

Visto a roupa nova, tô pronta, já é hora. Ligo pra minha filha.

– Oi Andréia, tudo bom? O Dedé já voltou da escola?

– Acabou de chegar, por quê?

– Tô querendo passar aí pra levá-lo na sorveteria. Quero tomar um sorvete no banco da praça com ele. Nessa praça onde eu costumava ir com você e a sua irmã depois das aulas.

Andréia fica muda por uns segundos. Mas logo, dissimulando as lágrimas, me diz:

– Ele vai amar sair com a senhora! Eu posso ir?!

– Claro minha filha, claro que sim

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2 comentarios sobre “Conto Curto A Janela. Autora Aline Fagundes

    1. Hola Shira! Me alegro que te haya gustado. Y si te sentiste identificada es porque la historia ha resultado creíble, realista! :). Es un mensaje de esperanza, en cualquier caso. Obrigado pela visita! Abrazo

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