vila abraao

Olhando para o céu escuto a noite que fala uma língua rara, espécie de silêncio que provém da glote da mesma escuridão. Um silêncio ferido pelo roçar dos chinelos na terra árida e pelo zumbido das asas dos insetos que rondam por aqui. Essa linguagem noturna se arrasta, arranhando a minha pele, ouriçando meus pelos, excitando meus sentidos.

A Vila do Abraão- não recordo desde quando e nem o por quê- sempre foi o atelier das minhas reflexões e o berço das minhas composições. Aqui fiz minhas melhores obras, as mais autênticas.

O que mais me inspirava eram os passeios de barco, bem cedinho, com os pescadores. Adorava me embriagar com a mata atlântica que observava do mar a uma certa distância. A vegetação da Ilha Grande, e das ilhas circundantes, apresentava diferentes tons de verde, do musgo ao bandeira, devido aos coqueiros, jaqueiras, amendoeiras, mangueiras e uma variedade infinita de árvores que as povoam.

O mar, verde esmeralda, se misturava com os tons dessa exuberante vegetação, formando uma cor nova, uniforme e viçosa. No céu, de um pulcro azul turquesa, as gaivotas formavam um grande cupido alado, cuja flecha apontava ao sol.

Ainda posso ouvir as ondas batendo suavemente no barco, posso sentir o cheiro de sal e degustar as gotas de suor que chegavam à minha boca.

Agora, no entanto, vejo tudo por aqui mais pálido. Como se a natureza houvesse desbotado; como se o dia, cabisbaixo, só iluminasse a silhueta das sombras.  Tudo daqui me faz lembrá-la.

Este lugar, para mim, é um imenso paradoxo. Ainda sinto-me atraído pela sua luz, como outrora, mas acho que a dor é o que me faz voltar aqui; talvez a necessidade de desvendar segredos irresolutos ou também a ansiedade própria da abstinência dos hábitos. 

Ontem passei sozinho, atravessei a ponte que tantas vezes atravessamos de mãos dadas. Senti que a maresia endureceu os meus cabelos e se infiltrou na minha cabeça, umedecendo a lembrança fossilizada.

Parado sobre um canto da ponte lembrei do último verão, da falta de chuva que assolava os moradores. Lembrei daquela noite, de como eu tinha a mente obtusa por causa do vinho e de como minhas emoções estavam banhadas de intolerância. Lembrei da nossa terrível discussão; ela saiu esbaforida, ofendida, rumo ao povoado. Vários dias passaram e nenhuma notícia. O meu coração foi ressecando-se pouco a pouco, durante todo esse verão calorento.

Agora que relato tudo isso, a medida que leio os versos que lhe escrevi naquele momento de profunda angústia, sinto que meu peito ruge porque cada palavra abre uma pequena rachadura.

Ontem, só ontem, tive coragem de retornar à esse limiar que separava o nosso mundo mágico, recolhido, do mundo que borbulhava no centro do povoado; à essa ponte que via da varanda abrigada pelo Ipê, enquanto velava pelos seus passos a medida que se distanciava.

Sobre a ponte ouvi esse silêncio escuro que escuto agora.  A noite parece arrastar a voz a modo de oração, enquanto a lua ilumina a ribeira rasa; ilumina a mesma ribeira onde o seu corpo foi achado, preso às madeiras corroídas.

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4 comentarios sobre “Conto Curto “Ilha Grande”. Autora Aline Fagundes

  1. Oi Aline

    O primeiro e último parágrafos tem uma potência visceral…. Parabéns!

    O ponto mais forte achei a imagem que você cria relacionando palavras referentes aos órgãos do corpo humano e palavras que remetem a algo não palpável… “provém da glote da mesma escuridão”. Em suas poesias vi que tambem estão presentes este estilo.

    É isso aí, continue escrevendo…

    Um abraço
    Adriano

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  2. Senti em cada palavra a magia que esse lugar tem, ou teve, para os personagens. Mas, senti como se tudo isso tivesse sido arrancado brutalmente, com o desfecho tragico. E, mesmo eu sendo dura de pedra, me emocionei. Aline Fagundes, você tem o dom.

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    1. Oi MIchele, obrigado querida por tomar o tempo de transmitir um comentário tao detalhado. Uma honra poder compartilhar sentimentos, imagens, sensacoes com todos vcs. Abraco!

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