Breve Biografia:

Augusto dos Anjos (1884-1914) foi um poeta brasileiro. Sua obra é extremamente original. É considerado um dos poetas mais críticos de sua época. Foi identificado como o mais importante poeta do pré-modernismo, embora revele em sua poesia, raízes do simbolismo, retratando o gosto pela morte, a angústia e o uso de metáforas. Declarou-se “Cantor da poesia de tudo que é morto”. O domínio técnico em sua poesia, comprovaria também a tradição parnasiana

Poema Negro. Traducción Aline Fagundes

Para iludir minha desgraça, estudo.
Para alentar a mi desgracia, estudio.
Intimamente sei que não me iludo.
Internamente sé que no soy un iluso.
Para onde vou (o mundo inteiro o nota)
Hacia dónde voy (todo el mundo lo nota)
Nos meus olhares fúnebres, carrego
en mi fúnebre mirada llevo
A indiferença estúpida de um cego
la necia indiferencia de un ciego
E o ar indolente de um chinês idiota!
y el aire indolente de un chino idiota!
A passagem dos séculos me assombra.
El paso de los siglos me asombra.
Para onde irá correndo minha sombra
¿Adónde va corriendo mi sombra
Nesse cavalo de eletricidade?!
en ese caballo de electricidad?
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
Camino, y me pregunto, mareada:
— Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?
– ¿Quién soy? ¿Adónde voy? ¿Cuál es mi pátria?
E parece-me um sonho a realidade.
Y me parece un sueño la realidad.
Em vão com o grito do meu peito impreco!
En vano, !con gritos pectorales expreso!
Dos brados meus ouvindo apenas o eco,
De mis gritos escucho apenas el eco,
Eu torço os braços numa angústia doida
Cruzo los brazos con alocado alarde
E muita vez, à meia-noite, rio
y muchas veces, a medianoche, me río
Sinistramente, vendo o verme frio
siniestro, viendo el gusano frío,
Que há de comer a minha carne toda!
que un día comerá toda mi carne.
É a morte — esta carnívora assanhada —
Y la muerte – esa carnívora ensañada –
Serpente má de língua envenenada
Serpiente cuya lengua envenenada
Que tudo que acha no caminho, come…
a todo lo que halla en el caminho, come
— Faminta e atra mulher que, a 1 de janeiro,
– Hambrienta y funesta mujer que,
a 1 de enero,
Sai para assassinar o mundo inteiro,
sale a matar el mundo entero,
E o mundo inteiro não lhe mata a fome!
!Y el mundo entero no le mata el hambre!
Nesta sombria análise das cousas,
En este sombrío análisis de las cosas,
Corro. Arranco os cadáveres das lousas
Corro. Arranco los cadáveres de las lozas
E as suas partes podres examino…
y a sus partes podridas examino…
Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,
Pero de súbito, oyendo un gran estruendo,
Na podridão daquele embrulho hediondo
en la miséria de ese embrollo cruento
Reconheço assombrado o meu destino!
!Aturdido reconozco a mi destino!
Surpreendo-me, sozinho, numa cova.
Me sorprendo, solo, en una cueva.
Então meu desvario se renova…
Entonces mi desvarío se renueva…
Como que, abrindo todos os jazigos,
Como que, tras abrir todas las sepulturas,
A morte, em trajos pretos e amarelos,
La muerte, con su traje negro y amarillo,
Levanta contra mim grandes cutelos
Alza sus grandes cuchillas contra mío
E as baionetas dos dragões antigos!
!y las bayonetas de dragones de outrora!
E quando vi que aquilo vinha vindo
Y cuando vi que aquello venía, viniendo
Eu fui caindo como um sol caindo
yo, cayendo como un sol, cayendo
De declínio em declínio; e de declínio
de un declive a otro; y de altura
Em declínio, com a gula de uma fera,
en altura, con la gula de una fiera,
Quis ver o que era, e quando vi o que era,
Quise ver que era, y cuando vi lo que era,
Vi que era pó, vi que era esterquilínio!
Vi que era polvo, !que era basura!
Chegou a tua vez, oh! Natureza!
Ahora es tu turno, !oh Naturaleza!
Eu desafio agora essa grandeza,
Yo desafío , ahora, a tu grandeza,
Perante a qual meus olhos se extasiam…
ante la cual mis ojos se extasían…
Eu desafio, desta cova escura,
Yo desafío, desde esta cueva oscura,
No histerismo danado da tortura
Desde la histeria alocada de la tortura,
Todos os monstros que os teus peitos criam.
a todos los monstruos que tus pechos
ansían
Tu não és minha mãe, velha nefasta!
!Tú no eres mi madre, vieja nefasta!
Com o teu chicote frio de madrasta
Con tu frío látigo, de madrastra,
Tu me açoitaste vinte e duas vezes…
me azotaste veintidós veces
Por tua causa apodreci nas cruzes,
Por tu culpa me pudrí en las cruces,
Em que pregas os filhos que produzes
dónde clavas a los hijos que produces
Durante os desgraçados nove meses!
!Durante esos desgraciados nueve meses!
Semeadora terrível de defuntos,
Terrible sembradora de difuntos,
Contra a agressão dos teus contrastes juntos
contra la agresión de tus contrastes, todos juntos
A besta, que em mim dorme, acorda em berros
La bestia, que en mi duerme, a los berridos
Acorda, e após gritar a última injúria,
se despierta, y tras bramar la última injúria,
Chocalha os dentes com medonha fúria
roza sus dientes con la misma fúria,
Como se fosse o atrito de dois ferros!
!que el del choque de dos pinchos!
Pois bem! Chegou minha hora de vingança.
Pues sí! Há llegado la hora de mi venganza.
Tu mataste o meu tempo de criança
Tu mataste a mi tiempo de crianza
E de segunda-feira até domingo,
Y del lunes al domingo,
Amarrado no horror de tua rede,
atado al horror de tu red,
Deste-me fogo quando eu tinha sede…
Me diste fuego cuando tenía sed…
Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!
No te preocupes, canalla, !que yo de ti me desquito!
Súbito outra visão negra me espanta!
!De repente otra negra visión me alcanza!
Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.
Estoy en Roma. Es viernes santo.
A treva invade o obscuro orbe terrestre.
Las trevas invaden la bóveda terrestre.
No Vaticano, em grupos prosternados,
En el Vaticano, en grupos arrodillados,
Com as longas fardas rubras, os soldados
Con sus uniformes rojos, los soldados
Guardam o corpo do divino mestre.
guardan el cuerpo del divino mestre.
Como as estalactites da caverna,
Como las estalactitas de la cuevas,
Cai no silêncio da cidade eterna
Cai sobre el silencio de la ciudad eterna
A água da chuva em largos fios grossos…
El água de la lluvia en anchos hilos gruesos…
De Jesus Cristo resta unicamente
De Jesús Cristo resta, unicamente,
Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente
Um esqueleto; y la gente, viéndolo, la gente
Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!
!Tiene ganas de abrazar a sus huesos!
Não há ninguém na estrada da Ripetta.
No hay nadie en la ruta de la Ripetta.
Dentro da Igreja de São Pedro, quieta,
Dentro de la iglesia de San Pedro, quieta,
As luzes funerais arquejam fracas…
las luces funerárias ondulam bajas..
O vento entoa cânticos de morte.
El viento entona cánticos de muerte.
Roma estremece! Além, num rumor forte,
!Roma tiembla! Allá, como una ola fuerte,
Recomeça o barulho das matracas.
recomienza el ruido de las matracas.
A desagregação da minha ideia
La disgregación de mi idea,
Aumenta. Como as chagas da morféa
Aumenta. Como las llagas de morféa,
O medo, o desalento e o desconforto
el miedo, el desaliento, la incomodidad
Paralisam-se os círculos motores.
Paralizan los círculos vivientes.
Na eternidade, os ventos gemedores
En la eternidade, los vientos gimientes,
Estão dizendo que Jesus é morto!
!Dicen que Jesús há muerto!
Não! Jesus não morreu! Vive na serra
!No! Jesús no ha muerto! Vive en la Sierra de
Da Borborema, no ar de minha terra,
la Borborema, en el aire de mi tierra,
Na molécula e no átomo… resume
en la molécula, en el átomo… resume.
A espiritualidade da matéria
La espiritualidad de la matéria.
E ele é que embala o corpo da miséria
Es él que menea el cuerpo de la miséria
E faz da cloaca uma urna de perfume.
y hace de la cloaca una urna de perfume.
Na agonia de tantos pesadelos
En el agobio de tantas pesadillas,
Uma dor bruta puxa-me os cabelos,
Un bruto dolor de los pelos me tira.
Desperto. É tão vazia a minha vida!
Me despierto. Y vacía está mi vida!
No pensamento desconexo e falho
En la razón inconexa y falla
Trago as cartas confusas de um baralho
traigo las confusas cartas de una baraja
E um pedaço de cera derretida!
!y un pedazo de cera derretida!
Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.
Duerme la casa. El cielo duerme. El árbol duerme.
Eu, somente eu, com a minha dor enorme
Yo, solo yo, con mi enorme dolor.
Os olhos ensangüento na vigília!
Los ojos macillados por el desvelo!
E observo, enquanto o horror me corta a fala,
Observo, mientras el horror me corta el habla,
O aspecto sepulcral da austera sala
el aspecto sepulcral de la austera sala
E a impassibilidade da mobília.
y la impasible forma del mobiliário.
Meu coração, como um cristal, se quebre
MI corazón, cual cristal, se rompe
O termômetro negue minha febre,
El termómetro negue mi fronte,
Torne-se gelo o sangue que me abrasa,
Se convierta en hielo la sangre que me abrasa,
E eu me converta na cegonha triste
Y yo me convierta  en una cigueña,
Que das ruínas duma casa assiste
Que ve desde las ruínas de una casa
Ao desmoronamento de outra casa!
!El desmoronar de otra casa!
Ao terminar este sentido poema
Al terminar este sentido poema
Onde vazei a minha dor suprema
Donde he volcado mi enorme pena
Tenho os olhos em lágrimas imersos…
Tengo los ojos en lágrimas inmersos..
Rola-me na cabeça o cérebro oco.
Resbala por mi cabeza el cérebro hueco.
Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
Será, Dios mío  !¿que ya no estoy cuerdo?!
Daqui por diante não farei mais versos.”
De ahora en adelante no escribiré más versos.

Biografia. Continuação:

Durante muito tempo foi ignorado pela crítica, que julgou seu vocabulário mórbido e vulgar. Sua obra poética, está resumida em um único livro “EU”, publicado em 1912, e reeditado com o nome “Eu e Outros Poemas”.

Augusto dos Anjos (1884-1914) nasceu no engenho “Pau d’Arco”, na Paraíba. Filho de Alexandre Rodrigues dos Anjos e de Córdula de Carvalho Rodrigues dos Anjos. Recebeu do pai, formado em Direito, as primeiras instruções. No ano de 1900, ingressa no Liceu Paraibano e compõe nessa época, seu primeiro soneto, “Saudade”.

Augusto dos Anjos, estudou na Faculdade de Direito do Recife entre 1903 e 1907. Formado em Direito, retorna a João Pessoa, capital da Paraíba, onde passa a lecionar Literatura Brasileira, em aulas particulares.

Em 1908, Augusto dos Anjos é nomeado para o cargo de professor do Liceu Paraibano, mas em 1910, é afastado do cargo por desentendimentos com o governador. Nesse mesmo ano casa-se com Ester Fialho e muda-se para o Rio de Janeiro, depois que sua família vendeu o engenho Pau d’Arco. Em 1911 é nomeado professor de Geografia, no Colégio Pedro II.

Durante sua vida, publicou vários poemas em jornais e periódicos. Em 1912 publicou seu único livro “EU”, que causou espanto, nos críticos da época, diante de um vocabulário grotesco, na sua obsessão pela morte: podridão da carne, cadáveres fétidos e vermes famintos. Como também por sua retórica delirante, por vezes criativa, por vezes absurda, como neste trecho do poema “Psicologia de um Vencido”: “Eu, filho do carbono e do amoníaco,/ Monstro da escuridão e rutilância,/ Sofro, desde a epigênese da infância,/ A influência má dos signos do zodíaco”.

Em 1914, Augusto dos Anjos é nomeado Diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira, em Leopoldina, Minas Gerais, para onde se muda. Nesse mesmo ano, depois de uma longa gripe, é acometido de uma pneumonia.

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos morre em Leopoldina, Minas Gerais, no dia 12 de novembro de 1914.

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