Poema Onda Vermelha. Autora Aline Fagundes

Batem as ondas da paixão

no mar calmo, adormecido.

Escuto seus cachos graúdos 

mexendo as águas, o fundo,  

pintando no peito rabiscos.

Ondas de maré vermelha, 

sobre mim sinuosas se enrugam,

me prendem e me puxam.

Eu as sinto bater, a tempo,

cobrir meu corpo por dentro;

sinto como vão dos meus pulsos

até a minha última veia.

E assim, a cada dia, cada onda

que me abraça, sistemática, 

com suas vastas asas de fogo,

me consome pouco a pouco,

me faz sua, me incendeia.

Poema Cinco letras. Autora Aline Fagundes

Apenas cinco letras

contém as noites, os dias,

os astros, as estrelas-guia

que povoam o universo.

É essa mera escrita

que faz girar os sentidos

e dá sentido a  uma vida.

Apenas cinco letras

e sinto eterna saudade:

das manhãs lentas, ardentes,

pés enlaçados, peitos sorridentes,

sonhos, uma janela escancarada.

Dessas manhãs, saudades…

Dos fluidos do meu sexo,

dos corpos nus e erectos,

do palpitar das mãos suadas;

dos olhos sabor caramelo

do companheiro sincero,

do hálito que a magia exala.

Somente letras

e uma voz que as grita,

em cada beco, faíscas

da minha memória.

Assim sempre me lembro

que no meio, centro de tudo

brilha a válida razão do mundo

retida nestas cinco letras.

Letras que admiro,

as quais amo, com certeza,

talvez mais que a mim mesma,

para as quais sei que vivo.

Poema Elixir Imaginário. Autora Aline Fagundes

Cai uma cachoeira de grãos, linhas de finíssima areia,

etérea cortina de centelha que deságüa no meu peito.

Do céu dos meus olhos vãos, vidente cúpula sem teto,

fértil hemisfério direito, escorre o elixir imaginário.

Descende rápido, rumo ao chão, com urgência;

desde as artérias, saliva e canais da subconsciência,

rolam os sonhos ascendentes, codificados.

E procuram sua liberdade, aspiram ser realidade

rolando do pico das idéias ao corpo sentido da ação.

Procuram chegar à terra, fundir-se com a experiência,

pintar de verde o deserto e de ouro molhar o chão.

Poema Vi e vivi. Autora Aline Fagundes

(imagen actor Wagner Moura en la peli Tropa de Elite 2)

Vi as linhas das suas veias,

brilhando como estrelas

nos poros da minha pele;

vi suas mãos e braços,

livres como pássaros,

regendo uma cadência

entre piano e presto.

Quase pude tocar o

vaivém do seu corpo

enquanto soprava à gosto

a fibra dos meus sentidos.

E de repente ocorreu.

Após beber sua saliva acesa

através dos meus olhos,

encharquei meus pulmões

de um estado de presença.

Vivi entao o que ele viveu.

Com as emoções empapadas

de silêncios e palavras

experimentei por instantes

a vida que vi representada,

a que também interpretei.

Poema Horizonte secreto. Autora Aline Fagundes

Em cada célula de desejo,

a cada mudança de vento,

estalam os passos da morte

sob os calcanhares do tempo.

Em cada expressão de dor,

a cada batimento de amor,

paira um horizonte secreto

que diz onde tudo se acaba.

Pode ser hoje, amanhã, ontem

assim, sempre que encontre,

o silêncio dos sentimentos,

a inutilidade da palavra,

o esgotamento da matéria.

E atrás dessa linha imaginária,

no espaço de eras ou horas,

descansa a pontual aurora

repleta de novidades.

Seus raios coloridos, intensos

ainda com a sombra da morte,

jorram sobre esse horizonte

a semente da vida nova,

a luz da vida renovada.

Poema Pulso. Autora Aline Fagundes

Treme o pulso do universo

justo aqui, bem no centro,

explodindo num arco-íris

de energia, luzes e som.

Como meteorito que morre,

lateja, se expande e eclode,

irrompe pelos cantos

do abnegado coração.

No peito pois reverbera,

move luas, marés intangíveis;

abre fluxo entre céu e terra

equilibra alma, corpo, vida.

Poema Roda. Autora Aline Fagundes

Rugem os sinos da roda,

voz do destino que se alça:

latente, pronta, inesperada.

Roça a sua pele avermelhada

nas gélidas fibras do rio,

para anunciar o fim do ciclo

e lavar-se em águas limpas.

Ela retorna, mas não ilesa;

após penetrar na correnteza

transformadora do desapego,

eleva-se com poucas certezas

e cheia de novos anseios.

Portanto nunca está vazia;

gestante da alma infinita,

de céus azuis e solos secos,

roda a fé inabalável,

água, transmuta, tempo.

Poema “Deixe-me”. Autora Aline Fagundes

Deixe-me distinguir a pureza

brilhando nas andantes veias

do seu coração faminto.

 

Não açoitemos as virgens intenções,

colorindo a boca com canções

cuja letra instaura medo.

 

Atente a voz dos meus olhos

que riem acima dos lábios,

ouça o seu grito insonoro

 

Talvez os meus desejos mais íntimos

sejam os seus, em um marco distinto,

atados a uma fronteira de egos

onde antes havia amorfo pó.

 

Imploro à você se conecte

à vontade única e inerente

de quebrar todos os zelos

 

Compartilhemos as penas

para que a palavra condena

mergulhe no níveo silêncio

e se pronuncie.

 

Deixe-se, enfim, mostrar-me,

errar entre os seus sorrisos,

deitar no seu leito, rendido,

e depositar velhas cascas.

Poema O Pêndulo. Autora Aline Fagundes

Pendulo

Pêndulo imaginário

atado ao céu do meu peito

oscila pesado, aqui dentro,

formando sorrisos alados

 

Flutua como um barco,

uma curva no ar,  à deriva,

pairando sobre os meus dias

com seus riscos alternados

 

Infla e esvazia feito vela,

pelo forte sopro dirigida

pela súbita calma esmaecida

ela vaivém, nova e obsoleta

 

E pendula, descansa o peso

das contínuas indecisões

em cada um dos extremos;

Alongando seus tendões

chega ao limiar do “espero”

e aos pés do desespero

 

Balança, pêndulo da vontade,

navega entre certeza e embate

no grande “ar” de circunstâncias;

subindo-se às asas dos ventos

ele sorri ao eterno movimento

sobrevive enquanto avança

Poema Formiguinhas. Autora Aline Fagundes

formiguinha2

Somos formiguinhas

aspirando a ser girafas

para chegar ao topo do mundo

ou ao centro de outra galáxia.

 

Certo é que precisamos,

deixar uma marca no espaço

estampa na vida, nos regaços

do amigo, amante e universo

 

Mas reféns confessos

de querer mostrarnos distintos,

se nutridos pelo ego viperino,

deturpamos as impressões

 

Assim, aparentemente indubitável,

as marcas se estampam de fato

mas em diferentes proporções:

 

quando solitários e dispersos,

somos pó,  linha de fumaça,

sopro no meio do tudo e do nada;

quando chegamos mais perto,

aprendemos a ser sujeitos,

formigas dividindo a estrada.

 

Sujeitos  à toda a liberdade

que corajosos e covardes

nos fizeram assentir;

somos guerreiros vesgos,

atrás de entendimento

sobre o motivo de existir;

seres frágeis que sopram

ventos que nos assolam

e desenham o porvir.

 

Ontem, hoje e adiante,

sempre micróbios e gigantes

nessa vontade sem fim;

achegados aos regaços

somos ouro e retalho

somos nãos e sims