Poema “Deixe-me”. Autora Aline Fagundes

Deixe-me distinguir a pureza

brilhando nas andantes veias

do seu coração faminto.

 

Não açoitemos as virgens intenções,

colorindo a boca com canções

cuja letra instaura medo.

 

Atente a voz dos meus olhos

que riem acima dos lábios,

ouça o seu grito insonoro

 

Talvez os meus desejos mais íntimos

sejam os seus, em um marco distinto,

atados a uma fronteira de egos

onde antes havia amorfo pó.

 

Imploro à você se conecte

à vontade única e inerente

de quebrar todos os zelos

 

Compartilhemos as penas

para que a palavra condena

mergulhe no níveo silêncio

e se pronuncie.

 

Deixe-se, enfim, mostrar-me,

errar entre os seus sorrisos,

deitar no seu leito, rendido,

e depositar velhas cascas.

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Poema Palavra velada. Autora Aline Fagundes

expressao

Dançam as sílabas caladas,

encolhem e esticam-se embaladas

pela emoção que exprimem.

 

Movem-se mãos, fios de cabelo,

pés, olhos internos e cotovelos,

ações do corpo  que agora fala

sob o impulso da palavra velada.

 

Oriundos do irrestrito silêncio,

onde as vozes se acumulam,

sigilosamente ricos, são gestos,

que surgem como retas e curvas

 

Vívidos eles se expandem,

se unem ao ar num abraço,

preenchem o vazio do espaço

ao tocar o gene do instante.

 

E através desses movimentos,

desse improvisado romance,

versos, gestos, corpo, vento,

são afinal uma massa mutante

Conto Curto “Ilha Grande”. Autora Aline Fagundes

vila abraao

Olhando para o céu escuto a noite que fala uma língua rara, espécie de silêncio que provém da glote da mesma escuridão. Um silêncio ferido pelo roçar dos chinelos na terra árida e pelo zumbido das asas dos insetos que rondam por aqui. Essa linguagem noturna se arrasta, arranhando a minha pele, ouriçando meus pelos, excitando meus sentidos.

A Vila do Abraão- não recordo desde quando e nem o por quê- sempre foi o atelier das minhas reflexões e o berço das minhas composições. Aqui fiz minhas melhores obras, as mais autênticas.

O que mais me inspirava eram os passeios de barco, bem cedinho, com os pescadores. Adorava me embriagar com a mata atlântica que observava do mar a uma certa distância. A vegetação da Ilha Grande, e das ilhas circundantes, apresentava diferentes tons de verde, do musgo ao bandeira, devido aos coqueiros, jaqueiras, amendoeiras, mangueiras e uma variedade infinita de árvores que as povoam.

O mar, verde esmeralda, se misturava com os tons dessa exuberante vegetação, formando uma cor nova, uniforme e viçosa. No céu, de um pulcro azul turquesa, as gaivotas formavam um grande cupido alado, cuja flecha apontava ao sol.

Ainda posso ouvir as ondas batendo suavemente no barco, posso sentir o cheiro de sal e degustar as gotas de suor que chegavam à minha boca.

Agora, no entanto, vejo tudo por aqui mais pálido. Como se a natureza houvesse desbotado; como se o dia, cabisbaixo, só iluminasse a silhueta das sombras.  Tudo daqui me faz lembrá-la.

Este lugar, para mim, é um imenso paradoxo. Ainda sinto-me atraído pela sua luz, como outrora, mas acho que a dor é o que me faz voltar aqui; talvez a necessidade de desvendar segredos irresolutos ou também a ansiedade própria da abstinência dos hábitos. 

Ontem passei sozinho, atravessei a ponte que tantas vezes atravessamos de mãos dadas. Senti que a maresia endureceu os meus cabelos e se infiltrou na minha cabeça, umedecendo a lembrança fossilizada.

Parado sobre um canto da ponte lembrei do último verão, da falta de chuva que assolava os moradores. Lembrei daquela noite, de como eu tinha a mente obtusa por causa do vinho e de como minhas emoções estavam banhadas de intolerância. Lembrei da nossa terrível discussão; ela saiu esbaforida, ofendida, rumo ao povoado. Vários dias passaram e nenhuma notícia. O meu coração foi ressecando-se pouco a pouco, durante todo esse verão calorento.

Agora que relato tudo isso, a medida que leio os versos que lhe escrevi naquele momento de profunda angústia, sinto que meu peito ruge porque cada palavra abre uma pequena rachadura.

Ontem, só ontem, tive coragem de retornar à esse limiar que separava o nosso mundo mágico, recolhido, do mundo que borbulhava no centro do povoado; à essa ponte que via da varanda abrigada pelo Ipê, enquanto velava pelos seus passos a medida que se distanciava.

Sobre a ponte ouvi esse silêncio escuro que escuto agora.  A noite parece arrastar a voz a modo de oração, enquanto a lua ilumina a ribeira rasa; ilumina a mesma ribeira onde o seu corpo foi achado, preso às madeiras corroídas.

Imaginação. Autora Aline Fagundes

Estou aqui sentada

numa cama de algodão

enquanto alisam minhas mãos

as emoções submersas

 

Tenho a cabeça repleta

de “se”, “talvez” ou “seria”,

vidas por mim desconhecidas

vivas curvas do sistema.

 

Aqui, olhando o infinito,

sinto o pulso que aumenta

o suave rumor que alimenta

novas asas no meu espírito

 

Então pairo no espaço

na cúpula de sabidos fatos

com o desejo de quebrá-los

para finalmente recriar

 

Criar uma verdade alternativa,

um mundo de outras medidas,

outras formas, outros climas,

enquanto viajo sem tempo

Ponteiros. Autora Aline Fagundes

Passam os ponteiros

contando lágrimas finas,

enquanto estancada vejo

uma imagem em ruínas.

Eles detêm-se na lembrança,

numa ideia, velhos anseios,

na madrugada do desejo,

fazendo chorar a esperança.

Passam assim sem roteiro,

apenas repetem as palavras,

e o eco dessa voz nublada

troveja na minha memória

Porque apesar do tempo,

de que já passou da hora,

meu coração ainda implora

pela vida de um sentimento

Porque os solitários ponteiros

procuram os restos mortais

do amor que ficou pra trás

mas ainda dói no meu peito.

Poema “Líquidas estrelas cadentes”. Autora Aline Fagundes

A água jorra pro alto

com forma de espada.

Sobe com tanta pressão

que na verdade se parece

a uma feroz erupção ou

a um supersônico foguete.

Lá encima, durante segundos,

entre o violeta e o verde mudos,

paira a espuma projetada,

níveo pássaro sem asas

Então começo a pensar:

O quê a sustenta no ar?

Será só uma questão de tempo

ou também de firmeza e anseio?

Mas de repente ela cai,

rasgando as capas de oxigênio

como um míssil de guerra;

e assim enquanto eu tento

reter o sonho que despenca

sinto que o chão se inquieta

porque já não há volta atrás.

Sei que as gotas que caem,

líquidas estrelas cadentes,

anunciam o fim iminente

do brilho que vi flutuar;

porque finalmente o vivido

igual a tudo acaba caindo

conforme às leis do planeta

Poema “Todas as cores”. Autora Aline Fagundes

O inflamado anel de ouro

ilumina o pintor, a sua testa,

e muda o tom da sua vista atenta

aos movimentos de quase tudo.

 

Uns pássaros brancos

perfilam nas nuvens um rastro,

refulgente caminho de plancto

no ar de azul esperança.

 

Ele observa esse caminho.

Centelhas pululam alinhadas

no céu desperto e limpo.

 

Agacha-se pensativo.

Logo toca a grama esguia

e, de repente, a velha magia

acende-se na sua alma.

 

Então dos seus olhos

caem imagens em cascata;

de suas mãos bem treinadas

saem os primeiros rabiscos.

 

Dedos e pincel enlaçados

conjugam luzes e sombras,

sabores, texturas e formas

como num poema narrado.

 

As mãos pairam sobre a tela

com a mesma sutileza

que a dos pés de um dançarino.

E cada passo dessa dança

são cores que se derramam  

em geométrica coreografia.

 

De um lado cai o amarelo

sobre as pequenas margaridas

sobre o vasto trigo que oscila

perante a força do vento;

e se mistura com o vermelho

da terra de minerais e argila,

de onde se alimenta.

 

Do outro lado, o mar sedento,

absorve as cores da noite

que reluz na pele dos cachalotes

na água turva, escamas de prata,

na casca do nácar.

 

Do mar, como um plumeiro

surge um semi-círculo alaranjado

que desprende o intenso cheiro

da morte de um dia ensolarado.

 

Ao ritmo das sensíveis pulsações

escorre-lhe a paleta inteira,

das suas curvas sobrancelhas

até os últimos dedões;

assim verte o arco-íris da memória

contando na tela uma estória,

colorindo-a com sensações.

 

Aos impressionistas.

Poema “Acredite”. Autora Aline Fagundes

Acredite

quando uma vela se acende

no meio dos caracóis escuros,

metida no raciocínio turvo

da sua mata de cabelos.

 

Se de repente se acende

um farol no fim do túnel

guiando os seus anseios

à esse novo descobrimento

 

Acredite.

 

Porque talvez essa centelha

seja o maior presente divino

o portal do templo infinito

que brilha na preta maleza

 

Quando o peito se ilumina

bate como um tambor alegre

e todo o seu corpo se agita

paira invisível e leve.

 

Acredite.

 

Porque talvez o que precise

é precisamente acreditar

para comungar com a vida

deixando a luz te inundar.

Poema “Voz inflamada”. Autora Aline Fagundes

Bem aqui, no centro,

há uma voz inflamada

que às vezes reconheço.

 

Costuma falar-me exaltada

como a terra quando treme

porque suas entranhas fervem

com o grito de um vulcão.

 

Pulsa assim, obstinada

de súbito se edifica por dentro,

até que explode em palavras

caladas na boca, retidas no peito.

 

Essas partículas de silêncio,

sílabas de instinto e fogo,

dilaceram o meu pomo,

perturbam os meus desejos

 

Bem aqui, no eixo

apesar de reter as frases de alerta

elas ultrapassam todas as frestas

das veias e do coração

 

Mesmo desejando então

um céu azulado e branco

essa voz se expande tanto

que pinta tudo de vermelho

 

Tudo que paira no ar,

ácaros, átomos, anseios

tudo que está entre os astros

e os meus pensamentos,

afinal tem uma única cor.

 

O céu, esse manto enorme,

tingido mostra-se deforme

etéreo caminho sem norte

mar de rosas sanguíneas

 

Pulsa sempre, decidida.

Mesmo que queira negá-la

essa voz jamais se cala,

porque é o grito da intuição

Poema “Noite sem fim”. Autora Aline Fagundes

Numa noite sem fim

acabou-se a pintura

que colorira a cúpula

de tantas noites estreladas

Acabaram-se não e sim,

e falaram as lágrimas

vertendo velhas mágoas

gritando nova angústia

Uma nuvem densa, escura

pairava sobre o instante,

sobre meu olhar errante,

perdido dentro da alma

Nessa noite sofri

porque calou-se o desejo

negou-me sua boca os beijos

de tantas horas apaixonadas;

sofri porque percebi

que os suspiros, os abraços,

nossas saídas ao teatro

seriam somente retratos;

que as mãos trêmulas

as gratas horas de estrada

seriam memória,  cilada

do meu coração em pena

Vivo como quem vive

à espera do arco-íris

de um dia sem fim

Desde então, assim

divido com o céu, a madrugada

com as estrelas apagadas

esse amor que me condena